Há presépios que ninguém vê, mas estão montados o ano inteiro
- Jornal Esporte e Saúde

- 26 de dez. de 2025
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Foto: Divulgação
Enquanto presépios ornamentais ocupam igrejas, praças e vitrines durante o período natalino, outros permanecem invisíveis — e montados durante todo o ano — nas ruas das grandes cidades brasileiras. São cenas permanentes de exclusão social, marcadas por pessoas em situação de rua, famílias sem acesso a moradia digna, mulheres, crianças e idosos expostos à fome, à violência e à ausência de políticas públicas efetivas.
Esses “presépios invisíveis” não são metáforas distantes. Eles estão sob viadutos, nas calçadas, em marquises de prédios públicos e privados. Diferente da representação bíblica, aqui não há simbolismo: há vidas reais atravessadas pela negligência do Estado e pela naturalização da desigualdade.
Para Maria Aparecida, 42 anos, que vive há três anos nas ruas centrais do município de Macaé, Rio de Janeiro, a invisibilidade é cotidiana.
“Só lembram da gente no Natal, quando alguém traz comida ou roupa. Depois, some tudo. O frio, a fome e o medo continuam o ano inteiro”, relata.
Segundo dados de organizações sociais que atuam com população em situação de rua, o número de pessoas vivendo nessas condições cresce ano após ano, impulsionado pelo desemprego, pelo alto custo da moradia e pela fragilidade das políticas de assistência. Ainda assim, o tema raramente ocupa espaço central no debate público fora de datas simbólicas.
João Carlos Ferreira, agente social há mais de uma década, afirma que o problema não é a falta de diagnóstico, mas a ausência de compromisso político.
“Todo mundo sabe onde estão esses presépios humanos. O que falta é vontade de desmontá-los com políticas estruturantes: moradia, saúde, trabalho e cuidado contínuo”, destaca.
A contradição se torna ainda mais evidente em períodos de celebração religiosa. O nascimento de Jesus, símbolo de acolhimento e justiça social, contrasta com a realidade de milhares de pessoas relegadas à margem. Para a socióloga Ana Lúcia Mendes, a distância entre discurso e prática é profunda.
“Celebrar o Natal ignorando a miséria é transformar a fé em adereço. Esses presépios reais expõem o fracasso coletivo em garantir dignidade”, analisa.
Especialistas alertam que ações pontuais, embora importantes, não substituem políticas públicas permanentes. Doações sazonais aliviam, mas não resolvem. A permanência desses presépios invisíveis revela uma sociedade que se comove por instantes, mas se acomoda na omissão ao longo do ano.
Enquanto isso, cenas de exclusão seguem montadas, dia após dia, lembrando que a desigualdade não é acidental. É resultado de escolhas — ou da falta delas.
Jornalista Mônica Braga
Jornalista com atuação, também, nas áreas de direitos humanos, políticas públicas, movimentos sociais, educação e justiça social. Desenvolve um trabalho voltado ao jornalismo investigativo e humanizado, com foco na escuta de vozes historicamente silenciadas e na análise crítica das estruturas de poder e desigualdade no Brasil.
* Texto: Jornalista Mônica Braga / assessora de imprensa.







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