Augusto Cury e o elevador ideológico: quando a sapiência desce alguns andares


Foto: Reprodução internet
Por Mônica Braga
Há textos que não precisam de interpretação acadêmica. Basta lê-los, e, às vezes, rir para não chorar.

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A postagem que circula nas redes transforma Augusto Cury em personagem de uma caricatura política: um bolsonarista que, segundo o texto, não teria sequer a habilidade de entrar em um elevador sem deixar um rastro de inconveniência pelo caminho.
O deboche é explícito: “não peida dentro do elevador cheio”, “não caga e deixa a privada cheia de bosta”, “não arrota alto à mesa do restaurante” e “não coça o saco na frente das visitas”. A conclusão vem como um trovão de quinta série: “Um bozo de sapatênis!”
É grosseiro? É.
É elegante? Nem de longe.
Mas talvez justamente aí esteja a força satírica da postagem: pegar a solenidade de uma suposta postura intelectual e colocá-la diante das pequenas, e nada nobres, regras de convivência que qualquer pessoa deveria conhecer antes mesmo de aprender a conjugar o verbo “civilizar”.
O alvo, portanto, não é apenas uma posição política. É a caricatura do bolsonarismo de condomínio, aquele que troca o grito pela pose, o argumento pelo deboche e a reflexão pela fidelidade canina ao próprio grupo.
Um “gado fraco”, para usar a linguagem da própria provocação: não necessariamente porque lhe falte inteligência, mas porque, quando a política vira culto, até a inteligência pode ser colocada de joelhos diante do curral.
E há uma ironia literária nisso tudo.
Augusto Cury construiu sua trajetória em torno de reflexões sobre comportamento, emoções e relações humanas. A internet, em sua infinita capacidade de produzir paradoxos, agora o coloca diante de um banheiro entupido, de um elevador malcheiroso e de uma mesa onde alguém arrota.
É o encontro improvável entre a psicologia e a privada.
Entre a filosofia e o saco coçado na sala.
Entre a pretensão de grandeza e a pequenez dos maus modos.
No fim, talvez a pergunta mais interessante nem seja “o que é Augusto Cury?”
Talvez seja:
De que adianta falar sobre inteligência, humanidade e comportamento se, na hora de conviver com o outro, a civilidade fica presa no elevador?
Porque caráter não cabe em sapatênis.
E educação, política, intelectual ou simplesmente humana, começa onde termina o direito de incomodar o outro.

Texto: Jornalista Mônica Braga / assessora de imprensa.



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