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A morte de Tainara Souza Santos e o feminicídio que o Brasil insiste em naturalizar

  • Foto do escritor: Jornal Esporte e Saúde
    Jornal Esporte e Saúde
  • 26 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

Quem falhou antes do feminicídio?


Foto arte: Divulgação


A morte de Tainara Souza Santos, 31 anos, não pode ser tratada como um episódio isolado de violência urbana. Trata-se de um feminicídio, hoje reconhecido oficialmente pela investigação, ocorrido após Tainara ser atropelada e arrastada na Marginal Tietê, uma das vias mais movimentadas de São Paulo.


Ela permaneceu 25 dias internada, passou por cinco cirurgias de alta complexidade no Hospital das Clínicas e morreu na quarta-feira (24). Seu sepultamento, nesta sexta-feira (26), foi marcado por aplausos — gesto que mais denuncia indignação do que homenagem.


O autor do crime, Douglas Alves da Silva, 26 anos, está preso desde 30 de novembro. A prisão, no entanto, não encerra o debate. Ela apenas cumpre uma etapa mínima do dever do Estado: punir depois que a mulher já está morta.


A pergunta central permanece sem resposta: onde o sistema falhou antes?


O feminicídio não começa no momento da morte. Ele é, quase sempre, o ponto final de uma sequência previsível de violências: controle, perseguição, ameaças, intimidação.


Quantas dessas etapas foram ignoradas? Houve sinais anteriores? Houve registros? Se houve, por que não foram suficientes para impedir o desfecho? Se não houve, por que mulheres seguem sem confiar — ou sem conseguir acessar — os mecanismos de proteção?


Tainara deixa dois filhos, de 12 e 7 anos. O impacto do feminicídio não se restringe à vítima direta: ele se espalha por gerações, aprofundando vulnerabilidades que o poder público insiste em tratar como dano colateral.


É preciso romper com a lógica da reação tardia. O Brasil segue atuando depois do crime, enquanto falha sistematicamente na prevenção. Medidas protetivas são frágeis. O monitoramento de agressores é insuficiente. A integração entre polícia, justiça e rede de proteção é falha. E a responsabilização do Estado por suas omissões segue praticamente inexistente.


As perguntas que precisam ser feitas — e respondidas publicamente — são diretas:


Quantos casos de violência contra mulheres poderiam ser evitados com políticas eficazes de prevenção?


Por que o feminicídio ainda é tratado como exceção, quando os dados demonstram padrão?


Quem responde institucionalmente quando o Estado falha em proteger uma mulher que acaba morta?


Naturalizar o feminicídio é aceitar a repetição. É transformar mortes anunciadas em estatística. É permitir que novos nomes ocupem o lugar de Tainara nas manchetes, enquanto discursos oficiais prometem mudanças que não chegam à ponta.


A morte de Tainara Souza Santos não pede apenas luto. Exige cobrança, revisão de políticas públicas e responsabilização concreta. Sem isso, o país seguirá fazendo o que sabe fazer melhor: lamentar depois e falhar antes.


Mônica Braga – Jornalista


Mônica Braga é jornalista, também, com atuação em direitos humanos, justiça social, educação e cidadania. Desenvolve trabalhos com foco na cobertura crítica da violência de gênero e na responsabilização do poder público.


* Texto: Jornalista Mônica Braga / assessora de imprensa.



 
 
 

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