Sufoco na saída adversária, intensidade e linha alta: o esboço de Jorge Jesus para o Flamengo

Com ideias táticas bem claras, equipe teve alguns problemas de ritmo e sofreu com os laterais do Athletico. Tendência é evoluir ao longo da temporada.

Foto: MARCELO ANDRADE/ESTADÃO CONTEÚDO.
20 dias. O que é possível fazer no tempo que Jorge Jesus tem de treino e vivência no Flamengo? A resposta está no desempenho da equipe no empate de 1 a 1 com o Athletico, pela Copa do Brasil: um time com ideias, naturalmente dominado por uma equipe mais sólida e trabalhada por mais tempo.
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Era esperado que Diego, Éverton e Arrascaeta começassem junto a Bruno Henrique e Gabigol, no 4-1-3-2 típico de Jesus - LEIA MAIS AQUI. Nada disso. A noite começou com Diego e Éverton Ribeiro no banco e Arão no time titular, num 4-4-2 bem definido. Em termos gerais, o time:
pressionou muito a saída de bola adversária
teve problemas em jogadas pelos lados, com os laterais do Athletico
acelerou e ficou pouco com a bola - apenas 43% da posse
levou grande pressão no fim, com três gols anulados
Intensidade e marcação alta no início
Os momentos iniciais do confronto na Arena foram do Flamengo. Por um motivo simples: intensidade. Time ligado, esforçado, que a mil subia a marcação e tentava o gol a todo instante. Essa marcação alta foi uma das principais mudanças. Os atacantes avançavam até quase a área do rival, Arão subia e o Fla fazia o Athetico se sentir num caixote, sem opções de saída para o goleiro Santos.
Destaque para Arão nessa jogada, que faz parte do livro de ideias que Jorge Jesus quer para a equipe. Ele saía da frente da área e subia onde Bruno Guimarães estivesse. O intuito era impedir que o ótimo volante do Furação tivesse espaço para jogar - é dele que vem as bolas em velocidade que normalmente articulam a equipe.
Ritmo intenso cobra preço com bola nas costas
Funcionou por aproximadamente 20 minutos, quando o ritmo caiu. Normal, já que é mais difícil manter a intensidade quando se marca alto, com jogadores precisando cobrir um espaço maior em campo, com mais decisões a serem tomadas. E talvez seja esse o desafio de Jesus: adaptar essa intensidade ao calendário e ao clima do Brasil, bem diferentes de Portugal.
O preço dessa queda de intensidade foi o domínio do Athletico pelos lados. Como os laterais da equipe espetam muito, havia um problema para Arrascaeta e Vitinho: ou eles avançavam e fechavam os zagueiros e volantes, como na primeira imagem, ou pegavam os laterais. Como escolhiam a primeira, Jonathan ou Azevedo “sobravam”, causando problemas para a defesa.
O avanço da linha defensiva, que muitas vezes era preenchida por Cuellar, também colaborou para esse cenário. É um claro caso onde há uma ideia, mas a execução é falha. Manter defensores “longe da casinha” exige trabalho dos atacantes, que devem incomodar a todo custo. Qualquer descuido é um perigo, porque obriga Renê ou Rodinei a saírem e mexerem com os zagueiros, os “últimos” protetores do jogo. Como contraponto, a linha alta pode deixar sempre os atacantes rivais em impedimento, como foi o caso dos três gols anulados.
Pouca posse, muita gente na área
Talvez seja no ataque onde as ideias de Jesus ficaram mais claras. O time foi organizado e tinha um padrão bem claro: colocar o maior número de gente na linha defensiva e tentar passes mais verticais, geralmente de zagueiro pra atacante. Se você pensar que Bruno Henrique e Gabigol são especialistas em correr para receber o passe no espaço, esse tipo de ataque em profundidade faz sentido. A imagem mostra um pouco da organização.
A questão é que o Fla fez apenas isso. Acelerou quando poderia cadenciar e esperar o espaço abrir. Gabigol e Bruno Henrique terminaram com muitas finalizações, mas poucas realmente claras. Outra questão é que esse jogo passou pouco pelo meio, que de certo modo ficou esvaziado só com Arão por lá. No segundo tempo a melhora na construção das jogadas foi evidente com Éverton Ribeiro, que segundo o técnico Jesus, não entrou por questões físicas.
Esse é um esboço de Flamengo. Um time inicial, que acaba de entrar em contato com as ideias de seu técnico. Por isso o esperado é que o time melhore e imponha esse jogo de intensidade, marcação alta e pouca posse, mas muita objetividade. Tudo vem com o tempo. Equipes são construídas a partir dele, seja em 20 dias ou 20 meses.
* Globoesporte.



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