Congresso Nacional dos Jornalistas debate o futuro da profissão na era da inteligência artificial
- Jornal Esporte e Saúde

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Encontro em Brasília (DF) vai discutir tecnologia, precarização e novos marcos regulatórios da comunicação

Foto arte: Divulgação
O 40º Congresso Nacional dos Jornalistas, organizado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), ocorre entre 10 e 13 de dezembro de 2025 e reafirma o papel histórico do encontro como o maior fórum democrático da categoria no país. Com mais de oito décadas de tradição, o evento se tornou o principal espaço de formulação política sobre a profissão, reunindo cerca de 250 jornalistas, estudantes e representantes do setor na sede do Sebrae, em Brasília (DF), em parceria com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF).
A presidenta da Fenaj, Samira de Castro, destaca o caráter estratégico do encontro para reposicionar as prioridades da categoria diante do novo cenário informacional. Para ela, o congresso “é o momento em que a categoria reafirma seu compromisso com um jornalismo ético, plural e democrático”. Ela desrtaca ser necessário “debater a tecnologia sem abrir mão da missão social”.
A programação, construída a partir das decisões dos congressos estaduais que antecederam a etapa nacional, busca atualizar o diagnóstico sobre o mercado de trabalho, as condições nas redações e os desafios estruturais que afetam a produção de informação no Brasil.
Transformações tecnológicas e o impacto da IA
Neste ano, a inteligência artificial (IA) ocupa o centro das discussões. A escolha do tema não é acidental: a automação já está alterando rotinas, eliminando funções, modificando a relação entre jornalistas e empresas e abrindo novos dilemas éticos para o exercício profissional. A conferência magna e os principais painéis do congresso abordam de forma aprofundada os efeitos dessa tecnologia e suas implicações para a autonomia editorial, a segurança informacional e os direitos dos trabalhadores.
Castro enfatiza que o debate precisa partir da defesa da apropriação social e profissional da tecnologia: “Vamos debater uma série de propostas e resoluções para reafirmar que a tecnologia precisa ser apropriada não para ampliar o lucro das empresas, mas para que a produtividade seja incorporada em favor do trabalhador jornalista”.
A presença da deputada Luiziane Lins (PT-CE), integrante do grupo de trabalho sobre regulação da IA no Congresso Nacional, sinaliza a importância de alinhar o debate sindical às discussões legislativas em curso.
A Fenaj defende que qualquer marco regulatório sobre IA considere a produção jornalística como bem público, garantindo transparência no uso de algoritmos, proteção à autoria e responsabilidade objetiva para plataformas e empresas que utilizam ferramentas generativas em processos editoriais. A discussão envolve ainda a necessidade de rastreabilidade de conteúdos automatizados, mecanismos de identificação de deep fakes e políticas públicas de enfrentamento à desinformação.
Condições de trabalho e respostas à precarização
Embora a tecnologia seja um dos eixos centrais, o congresso da Fenaj mantém como prioridade histórica o debate sobre direitos trabalhistas e enfrentamento às diversas formas de precarização que marcam a realidade das redações brasileiras. O crescimento das contratações via Pessoa Jurídica (PJ) e Microempreendedor Individual (MEI), a informalidade, a terceirização e a redução de equipes são temas que atravessam os depoimentos e análises.
As discussões buscam atualizar o conjunto de cláusulas que compõem as convenções coletivas, ampliando salvaguardas para a categoria, inclusive com relação ao uso da IA. A preocupação é que a automação seja utilizada como justificativa para o encolhimento de equipes, sobrecarga de funções, redução salarial e substituição de profissionais por sistemas automáticos de produção de texto e edição.
Além disso, o congresso apresenta um panorama atualizado da empregabilidade formal dos jornalistas no país, com dados que revelam a concentração de postos nas regiões Sudeste e Sul e a persistência de disparidades salariais entre estados e entre setores da comunicação. A precarização é vista como fenômeno estrutural que se intensifica quando não há regulamentação capaz de acompanhar a velocidade das inovações tecnológicas.
O lançamento da campanha salarial unificada de 2026, tradicionalmente apresentado nesse espaço, consolida o encontro como um momento de articulação política nacional, em que sindicatos discutem estratégias conjuntas para enfrentar a retração do mercado de trabalho e defender a valorização profissional.
Regulação, democracia e sustentabilidade da comunicação
Outro eixo central do 40º Congresso Nacional dos Jornalistas é a necessidade de marcos regulatórios capazes de equilibrar a relação entre empresas de comunicação, plataformas digitais e o Estado. Para a Fenaj, a concentração econômica das big techs, associada ao domínio que exercem sobre a circulação de informação, exige respostas estruturais que envolvem taxação, transparência algorítmica e mecanismos de proteção à produção jornalística.
O painel sobre sustentabilidade aprofunda esse debate ao analisar propostas como a criação de um imposto digital e a formação de um fundo público para financiar iniciativas jornalísticas em diferentes regiões do país. A ideia, segundo a Fenaj, é garantir diversidade, pluralidade e independência editorial, especialmente em um cenário em que veículos regionais têm sido particularmente fragilizados pela crise econômica e pelo avanço das plataformas.
O evento também discute o papel do jornalismo na defesa da democracia, especialmente diante do avanço de discursos extremistas, ataques a jornalistas e campanhas articuladas de desinformação. Samira de Castro reforça que enfrentar esses desafios passa por fortalecer a formação profissional, renovar parâmetros éticos e garantir condições dignas para o exercício do jornalismo. Para ela, a qualificação permanente da categoria “é essencial para proteger o interesse público frente às novas ferramentas de manipulação automatizada”.
Uma agenda coletiva para o futuro
Além dos debates principais, o encontro promove diálogos com universidades sobre o ensino de Inteligência Artificial para estudantes de Jornalismo, buscando aproximar o campo acadêmico das demandas reais das redações. Também articula a participação de entidades nacionais e internacionais, como a Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), a Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae), o Banco do Nordeste e o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), que apoiam e patrocinam o evento.
Para a Fenaj, o 40º Congresso Nacional dos Jornalistas não se limita a diagnosticar problemas: sua proposta é produzir resoluções que orientarão a atuação sindical nos próximos anos, indicando caminhos para fortalecer a profissão diante de desafios que combinam tecnologia, economia, política e ética. A defesa do jornalismo como pilar da democracia e como serviço essencial à sociedade permeia todas as discussões, reafirmando o compromisso da categoria com um futuro em que informação confiável continue sendo direito de todos.
O Congresso conta com o patrocínio da Caixa Econômica Federal, Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), Banco do Nordeste (BNB) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), além do apoio da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae), Associação dos Docentes da UnB (Adunb), Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital (Fenafisco), Sindicato dos Fazendários do Ceará (Sintaf-CE) e Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes).
* Fenaj / Divulgação.







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